O que faz afinal a lei Ripost?
A França passa vinte anos a tentar legislar a free party até ao seu fim, e a lei Ripost é o golpe mais duro até hoje. O Senado aprovou-a a 26 de maio de 2026 por 243 votos contra 33, e o texto segue agora para a Assembleia Nacional. Se entrar em vigor, organizar uma rave não autorizada poderá custar até dois anos de prisão e 30.000 euros de multa. Aparecer só para dançar e recusar a nova multa fixa de 1.500 euros pode valer até seis meses atrás das grades e uma sanção de 7.500 euros.
As mudanças mais discretas mordem com igual força. O limiar para avisar a prefeitura desce de 500 para 250 pessoas, o que arrasta as pequenas festas na floresta e as noites pontuais de um sound system para a mesma rede que os grandes teknivais. As empresas de aluguer de equipamento teriam de guardar a identidade do locatário durante três meses, e um texto à parte em tramitação no Parlamento, a PPL 1133, junta a apreensão sistemática do som às penas de prisão.
Como reagiu a cena?
Com camiões, não com petições. No sábado 13 de junho o coletivo Tekno Anti Rep coordenou aquilo a que o movimento chama uma manifestive, um protesto que é também uma festa, numa trintena de cidades. Em Paris o cortejo partiu de Stalingrad e serpenteou pelo norte e leste da capital, com os sound systems a formar a espinha dorsal da marcha. Vinha depois de semanas de escalada: cerca de 970 pessoas desfilaram em Rouen a 6 de junho, vários milhares em Montpellier a 30 de maio, e na noite de 5 para 6 de junho cerca de 2.000 ravers realizaram uma festa ilegal perto de Claret, no Hérault, apesar da proibição da prefeitura e dos 160 gendarmes destacados para a impedir.
O senador Guy Benarroche classificou a lei como mais uma pedra no edifício de uma sociedade de vigilância.
Os clubes também fecham fileiras. O Le Sucre de Lião organizou uma noite de doze horas em solidariedade com a free party, lembrança de que a fronteira entre o clube licenciado e a rave no campo é mais ténue do que a lei finge.
Porque é que isto importa para além da França?
A freetekno nasceu em França nos anos noventa e o país mantém uma das maiores culturas de sound system da Europa. Quando Paris criminaliza a festa sem licença, o resto do continente observa, porque por todo o lado se usam os mesmos argumentos, o ruído, a segurança, a droga, os terrenos, para fechar espaços. É a luta mais antiga do underground, e neste momento trava-se à luz do dia.



