Em junho de 2024, a firma de private equity KKR comprou a Superstruct Entertainment à Providence Equity Partners por um valor reportado de 1,3 mil milhões de euros (cerca de 1,39 mil milhões de dólares). A Superstruct não é um operador de nicho: gere cerca de 80 festivais e 200 eventos mais pequenos por toda a Europa e Austrália, atraindo perto de sete milhões de pessoas por ano. Foi fundada em 2017 por James Barton, antigo executivo da Live Nation. Se dançaste num grande festival europeu no verão passado, há boas probabilidades de um fundo de aquisições de Wall Street ter embolsado o teu bilhete.

A maioria do público não fazia ideia. Depois os artistas descobriram de quem é o palco, e recusaram-se a tocar.

Porque é que os cartazes ruíram?

O estopim é onde a KKR põe o seu dinheiro. Os ativistas, liderados pelo coletivo de base Ravers For Palestine, apontaram as participações da KKR em empresas ligadas à ocupação israelita: a Axel Springer, cuja plataforma Yad2 lista imóveis em território palestiniano ocupado; a empresa de cibersegurança Optiv; e, separadamente, o oleoduto Coastal GasLink. Foi lançado o apelo ao boicote dos festivais da Superstruct, e o impacto foi forte.

Os números são contundentes. No Field Day de Londres, 19 dos 42 artistas confirmados retiraram-se, entre eles Mall Grab, Midland, Roza Terenzi, Sisu Crew, Regularfantasy e Spray. No Sónar, mais de 70 artistas que já lá tinham tocado assinaram uma carta aberta em maio de 2025 jurando nunca mais voltar, e a 4 de junho mais de 30 tinham cancelado os seus sets de 2025, entre eles Arca, Rone e Juliana Huxtable. O primeiro protesto documentado tinha chegado ainda antes, em agosto de 2024, no Flow Festival de Helsínquia.

O que disseram os festivais?

Esta é a armadilha que a propriedade por private equity arma às marcas que ficam por baixo. Os festivais davam razão aos defensores do boicote e nada podiam fazer contra a sua causa. O Field Day declarou-se "passionately opposed to KKR's unethical investments in Israel," acrescentando: "We cannot control who owns our parent company." O Sónar foi mais longe: "Sónar distances itself from any action taken by KKR. We have no influence over, nor of course any control whatsoever, over their investments or decisions."

Esta é toda a história do leveraged buyout em duas frases. Quem contrata os artistas e quem aplica o capital já não são as mesmas pessoas, e o programador não tem direito de veto sobre o financiador.

Os artistas descobriram a meio do cartaz quem realmente embolsa o seu cachê, e as marcas em que confiavam admitiram ser apenas inquilinas.

Quem acabou por sair?

A saída mais reveladora não foi um boicote de artistas. Em outubro de 2025, as três pessoas que criaram o Sónar em 1994, Enric Palau, Ricard Robles e Sergio Caballero, afastaram-se após 30 anos, ao lado do sócio Ventura Barba, que se tinha juntado em 2009. A Superstruct tinha tomado uma participação maioritária no Sónar já em 2018; a compra da KKR em 2024 colocou um fundo de buyout acima deles na estrutura. Um novo CEO, François Jozic, cofundador da Brunch Electronik, assume o leme.

As palavras de despedida dos fundadores nomearam o talento e a cidade, não o proprietário: "Everything that Sónar has achieved over the years has been possible thanks to the talent and dedication of creative communities." O que construíram sobreviveu-lhes. O controlo não.