O que realmente distingue o WHOLE dos outros festivais de techno?
O WHOLE Festival não se apresenta como um festival de música com ambiente queer-friendly. Apresenta-se como uma infraestrutura queer que, de caminho, tem uma programação musical. A oitava edição decorre de 17 a 20 de julho em Ferropolis, a antiga mina de linhito nos arredores de Berlim mais conhecida pelas suas cinco escavadoras enferrujadas do tamanho de prédios do que pela cultura de clube. Este ano, os organizadores batizaram a edição de «Enter The Whole». A lotação está limitada a 10 mil pessoas, um número contido o suficiente para o festival construir aquilo que um evento à escala de estádio nunca se dá ao trabalho de fazer: uma zona FLINTA dedicada, uma área pansexual, um Cruising Village ampliado e um programa de solidariedade que paga a entrada a refugiados e pessoas QTIBPOC que, de outra forma, ficariam de fora pelo preço do bilhete.
Esse é o verdadeiro assunto, não o cartaz de DJs. Muitos festivais metem a palavra «queer» no comunicado de imprensa. Poucos constroem a arquitetura real: espaços separados, dimensionados e geridos para necessidades de segurança diferentes, um escalão de bilhetes pensado especificamente para eliminar a barreira económica para as pessoas que a cena diz servir, e uma estrutura de voluntariado em que as equipas que montam os palcos e gerem o village são a mesma comunidade que o festival protege.
Quem toca, e onde?
Seis palcos sustentam o cartaz de 187 artistas: a Arena para hard techno, a Beach para house, além de Crane, Forest, Ambient e Trina. Miss Kittin e Freddy K lideram a Arena, Octo Octa fecha a Beach com um live. O resto do cartaz lê-se como um índice do underground queer mundial: Sherelle e HAAi do lado mais pesado, Juliana Huxtable a meio caminho entre música e performance, além de Jasss, Bashkka, D.Dan, Parfait, Tama Sumo e Gerd Janson. Há também espaço para coletivos vindos de longe: a Anti-Mass, de Kampala, e a PERVERT, da Cidade do México, curam as suas próprias sessões ao lado de habituais berlinenses como Herrensauna, Gegen e Cocktail d'Amore.
Porque meter um cruising village e um fundo para refugiados dentro de uma rave?
Porque a segurança em clube para pessoas queer, trans e não binárias não é abstrata, é logística pura: quem é assediado ao balcão, quem é travado na fronteira antes sequer de chegar ao festival, quem não tem dinheiro para o bilhete. A resposta do WHOLE é desenhar esses problemas fora da planta do recinto, em vez de os tratar depois como queixas. A zona FLINTA e a área pansexual do Cruising Village não respondem às mesmas necessidades: separá-las é admitir que «queer-friendly» não é um único cenário. O programa de solidariedade faz o mesmo trabalho do lado financeiro, cobrindo a entrada de refugiados e pessoas QTIBPOC em vez de deixar a inclusão à mercê de um cofre de donativos.
O WHOLE descreve-se como um lugar «onde a energia da rave encontra a reflexão, e o prazer convive com o cuidado»: um ecossistema social temporário, montado a cada verão e depois desmontado.
Nada disto torna o WHOLE único em querer ser um espaço seguro. O que é invulgar é a escala: um evento de 10 mil pessoas, 72 horas, seis palcos, a sustentar a infraestrutura que uma noite de clube muito mais pequena reservaria a uma única sala. Oito edições depois, num recinto cuja função original era extrair carvão, o WHOLE demonstra que o underground pode aguentar esse peso sem perder aquilo que valia a pena proteger.



