O que proibiram afinal os prefeitos?
O gesto interessante, neste mês de junho, não foi proibir as festas. Isso os prefeitos fazem todos os verões. O gesto interessante foi proibir os camiões. No fim de semana de 19 a 22 de junho de 2026, o da Fête de la Musique e do solstício de verão, prefeito atrás de prefeito assinou portarias que proibiam a circulação de qualquer veículo carregado de equipamento de som rumo a uma rave, um teknival ou uma free party não autorizados. Não o muro de som a tocar num campo. O muro de som na traseira de uma carrinha, na autoestrada.
Na Vendeia a portaria vigorava de 19 a 22 de junho inclusive e apoiava-se no artigo R.211-2 do Código de segurança interna, o que permite a um prefeito restringir o trânsito para evitar uma perturbação da ordem pública. Era a terceira proibição do género no departamento em poucas semanas, depois de duas em maio. O texto visava o "matériel de sonorisation destiné à des manifestations non autorisées": equipamento de som destinado a ajuntamentos não autorizados. Lendo sem rodeios, significa que um equipamento carregado num veículo passa a ser algo que o Estado pode parar na estrada.
Até onde se estendeu o aperto?
O Calvados agiu à escala de todo o departamento. O prefeito proibiu os ajuntamentos festivos musicais não declarados de 19 a 22 de junho às 10h e, no mesmo traço, o transporte de equipamento de som "suscetível de ser usado" nesses eventos, tudo anunciado na conta da prefeitura e ajustado mesmo à Fête de la Musique de 21 de junho. O mesmo molde repetiu-se pelo país ao longo do mês: Maine-et-Loire, Morbihan, Cantal, Ardèche, Altos Pirenéus, cada um com a sua versão da mesma proibição em dois tempos, a festa e o material que a torna possível.
Já não vigiam apenas onde se dança. Vigiam se as colunas têm o direito de estar dentro de uma carrinha em andamento.
Nada disto cai do céu. Um teknival perto de Redon, a 18 e 19 de junho, juntou cerca de mil pessoas antes de terminar numa intervenção policial violenta e contestada, o tipo de cena que o mundo das free parties documenta e leva a tribunal há anos. As portarias que caíram poucos dias depois leem-se, para quem vem dessa cena, como a frente logística da mesma luta.
Por que proibir o veículo pesa mais do que proibir a festa?
Porque desloca a repressão para montante, para fora do campo e para a estrada, onde ainda não há festa para apontar, apenas um palpite sobre o destino de uma carrinha. Uma free party sem organizador declarado e sem morada fixa sempre foi difícil de travar uma vez começada. Cortar a coluna antes de ela chegar é mais barato, mais limpo e muito mais total: sem muro de som, não há rave. Tudo isto assenta sobre a lei-1133, que baixa de 500 para 250 pessoas o limiar de declaração dos ajuntamentos não autorizados e acrescenta prisão e multas para os organizadores, e que o coletivo Tekno Anti Rep classifica de "liberticida". As proibições de circular são essa lógica feita física: a forma mais simples de matar um sound system é garantir que ele nunca chega ao terreno.



