O que abre afinal em setembro?
A Spiral Tribe entrega o seu arquivo ao público. A Unmasked Presents montou uma exposição de quatro dias no REinsTate, em Silvertown, no leste de Londres, de 16 a 19 de setembro de 2026, com seis membros históricos do coletivo a dar-lhe forma. A promessa: um olhar raro sobre os arquivos, as imagens, a linguagem visual e o legado contracultural do sound system itinerante mais temido da Grã-Bretanha.
A mostra visita-se de graça a semana toda. À volta, um programa que não é: conversas, oficinas, projeções, entrevistas e sessões ao vivo com membros, com bilhete e lotação reduzida. Surge depois de edições em Manchester e em França, e de uma exposição de Zurique em 2023 intitulada «Music, Magic and Mayhem». Desta vez a semana não acaba numa placa. Acaba num rave SP23 no Distillery N17 a 19 de setembro, os membros de volta atrás do muro de colunas ao lado dos residentes da Unmasked.
Porque é que a Spiral Tribe ainda importa?
Porque é por causa deles que existe uma cláusula sobre «batidas repetitivas» na lei britânica. A Spiral Tribe nasce em Londres em 1990 em torno de Mark Harrison, Debbie Griffith e Simone Feeney. Em maio de 1992 sonorizam Castlemorton Common, no Worcestershire, um free festival que incha até às dezenas de milhares depois de a polícia impedir os travellers de chegar ao Avon Free Festival. Treze membros são detidos e acusados de perturbação da ordem pública. São absolvidos em março de 1993, após um julgamento de quatro meses que custou ao Estado cerca de 4 milhões de libras, um dos mais longos e caros do género.
Perderam o festival, ganharam o julgamento e ainda assim acabaram escritos no código penal.
A absolvição não fecha a história. A tempestade da imprensa em torno de Castlemorton é amplamente apontada como aquela que preparou o terreno para o Criminal Justice and Public Order Act de 1994. Metade da equipa parte pouco depois para a Europa, encadeia festas nos Países Baixos, na Alemanha e na Áustria, instala-se em Berlim no Kunsthaus Tacheles e lança discos em editoras de techno como a Labworks e a Network 23. O coletivo renasce como SP23 em 2011 e nunca parou de vez.
O que diz um arquivo sobre a cena de agora?
Diz que o underground está a ser relido mesmo no momento em que está sob pressão. No Reino Unido e na Europa os clubes fecham e as licenças apertam, e aqui está o velho inimigo do Estado, emoldurado e iluminado, pendurado na parede de uma galeria. O risco de transformar em peça de museu um movimento feito de invasão e recusa é real. O que o mantém honesto é quem o conta: quem o viveu, que põe as provas com as próprias mãos e fecha a semana numa pista em vez de numa visita guiada. Para uma geração que luta contra os encerramentos de hoje, a lição do arquivo cabe numa frase. As batidas repetitivas venceram.



