A maioria de quem se lembra do boneco amarelo dos antigos anúncios da Levi's não faz ideia de que já conhece o diretor de um dos filmes franceses mais estranhos do momento. O boneco era o Flat Eric. A faixa, Flat Beat. O produtor, Mr. Oizo, e Mr. Oizo é Quentin Dupieux, que em quinze anos virou um dos cineastas do absurdo mais prolíficos do mundo. Seu primeiro longa de animação, Le Vertige (lançado lá fora como Vertiginous), encerrou a Quinzena dos Cineastas em Cannes no dia 21 de maio e chegou aos cinemas franceses em 10 de junho. Assiste-se a ele como a uma bad trip de 67 minutos, e isso é um elogio.

Por que um fã de house se importaria com um filme de Dupieux?

Porque o cineasta e o produtor são a mesma pessoa, e as duas carreiras se alimentam uma à outra. Como Mr. Oizo, Dupieux lançou Flat Beat em 1999, um funk de máquina distorcido e hipnótico que chegou ao número um no Reino Unido e vendeu mais de três milhões de cópias graças à campanha do Flat Eric. Assinou com a Ed Banger Records, o selo de Pedro Winter, em 2006, ao lado do Justice e do resto da segunda onda do French touch. Durante anos compôs a música dos próprios filmes sob o nome de Mr. Oizo: Rubber, Wrong, Wrong Cops. A música nunca foi enfeite. Fazia parte do humor impassível.

Sobre o que Le Vertige fala, afinal?

Sobre um homem que enxerga a simulação e os amigos que o acham chapado. Jacky, dublado por Alain Chabat, se convence de que a realidade é um videogame e passa o filme tentando fazer quem está à sua volta, a começar pelo cético amigo Bruno (Jonathan Cohen), acreditar que suas vidas são secretamente renderizadas por uma máquina. Para eles soa como teoria paranoica, o delírio de alguém que exagerou em algo. Para nós é evidente, porque vemos o mundo angular e cheio de falhas que eles não veem. Todo o filme está nessa diferença: uma viagem impassível em que o único que decifrou o universo é também aquele que ninguém escuta. A Écran Large o descreveu como um Matrix francês caído de um PlayStation 1, e a etiqueta encaixa. Com 67 minutos, é curto, afiado e exatamente o tipo de brincadeira formal pela qual os fãs dele aparecem.

Um produtor que dominou as paradas britânicas com um boneco encerra agora Cannes com um desenho sob efeito de ácido, sobre um homem que vê a simulação na qual os amigos se recusam a acreditar.

Então, ele assinou a trilha?

Não, e é a reviravolta que vale destacar. A trilha de Le Vertige é creditada a Franck Lascombes, não a Mr. Oizo. Dupieux já tinha se afastado das próprias composições: Réalité, em 2014, encerrou a sequência de filmes que ele assinava sozinho, e só voltou a isso em O Segundo Ato, em 2024. Le Vertige fica, portanto, do lado da obra em que ele dirige mas deixa outra pessoa cuidar do som, um lembrete de que os chapéus de Mr. Oizo e de Dupieux nem sempre são usados ao mesmo tempo.

Quem conseguiu esse visual, na verdade?

Uma equipe que caberia numa sala pequena. Le Vertige foi produzido pela Chi-Fou-Mi Productions e animado por cinco recém-formados da escola Gobelins, em Paris, trabalhando no Blender, o software livre, com captura de movimento gravada num iPhone e num aplicativo de consumo baratinho. Sem render farm, sem IA. O visual propositalmente quebrado e poligonal é justamente o ponto: o mundo precisa parecer um jogo para a piada funcionar, então quanto mais barato e mais PlayStation 2 ele parece, melhor. Cinco formados com um telefone, um software gratuito e um aplicativo de saldo estrearam um longa em Cannes apostando nos próprios limites em vez de brigar com eles, e é essa restrição, e não a esteira de um grande estúdio, que dá ao filme sua estranheza artesanal e perturbadora.