O que Thomas Bangalter realmente disse sobre Tron: Legacy?

No episódio de julho de 2026 do A24 Podcast, «Genuine Curiosity», Thomas Bangalter conversou com Devonté Hynes, do Blood Orange, e revisitou um capítulo da carreira que raramente comenta em primeira pessoa: a composição da trilha de Tron: Legacy ao lado do parceiro no Daft Punk, Guy-Manuel de Homem-Christo. Bangalter lembra que o pedido inicial do diretor Joseph Kosinski era o oposto do que o filme acabou sendo: «Quero que vocês façam uma trilha totalmente eletrônica…». O Daft Punk recusou. «Vamos para Hollywood, vamos soar como Fantasia, como a Disney com uma orquestra completa!», recorda Bangalter que responderam. O que veio depois, em suas palavras, «foi muito limitante».

Por que o Daft Punk trocou sua própria sonoridade por uma orquestra?

A limitação era tanto técnica quanto artística. «O problema era que tudo na faixa média entrava em conflito com os diálogos», explica Bangalter: a maior parte das texturas eletrônicas em torno das quais o Daft Punk costuma construir uma faixa não tinha espaço numa mixagem pensada para a voz. «Acabamos usando só… esse baixo pulsante», detalha, descrevendo como a marca eletrônica da dupla sobreviveu apenas nos graves. O grosso da trilha se apoia em um conjunto ao vivo estimado em 85 músicos, gravado nos estúdios AIR Lyndhurst, em Londres, com o arranjador Joseph Trapanese, um projeto em que Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo trabalharam por cerca de um ano e meio. «Eu tinha um monte de ideias… Mas toda trilha de filme é sobre dar um passo atrás pela atuação, não atrapalhar», resume Bangalter sobre uma disciplina que vai contra o jeito como o Daft Punk costuma fazer música.

«É sempre muito deprimente quando você tem um monte de ideias e no fim acaba voltando a um jeito mais tradicional de fazer as coisas.»

Bangalter acha que uma orquestra supera um sintetizador?

Na prática, sim. «Parte da identidade do Daft Punk era trabalhar com instrumentos eletrônicos, e é preciso um esforço enorme para dar alma ao som desses sintetizadores», confessa a Hynes, uma visão que bate com o que Guy-Manuel de Homem-Christo disse publicamente na época das mesmas sessões: «Sintetizadores são um nível muito baixo de inteligência artificial, enquanto um Stradivarius vai viver mil anos. Sabíamos desde o início que não faríamos essa trilha com dois sintetizadores e uma caixa de ritmos.» A trilha final, construída em boa parte sobre instrumentos que o Daft Punk evitou a carreira inteira, ainda assim rendeu ao grupo uma indicação ao Grammy de melhor trilha sonora para mídia visual, seu maior reconhecimento mainstream fora dos próprios álbuns.